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Johnny Cash

Disco póstumo mostra decadência de Johnny Cash

A decisão de encerrar American VI: Ain't No Grave, o disco final na série American, que redefiniu a carreira de Johnny Cash, com Aloha Oe, uma canção tradicional havaiana, foi tomada por ele, pouco antes de morrer, em 2003. Se não soubéssemos disso, Aloha Oe pareceria uma espécie de piada: seis discos inteiros de canções pesarosas, lamuriosas, reflexivas, ao modo country gótico, encerrados com três minutos de relaxamento em ritmo de praia. Mas porque sabemos, temos de reavaliar não apenas a canção mas o cantor, em seus dias finais. Quem pode dizer que Cash, contemplando o fim de sua vida, não tinha alegria no coração?

Não há muitos indícios que confirmem a teoria, claro. No geral, os discos registraram a decadência de Cash em tempo real. Em American Recordings, de 1994, ele ainda estava vigoroso, aguçado, e voltava a ser a consciência viva do country. Mas em American V: A Hundred Highways, gravado nos meses anteriores à sua morte e lançado em 2006, ele já parecia instável em termos sonoros, se bem que tenaz.

O novo disco foi extraído das mesmas sessões, interrompidas pela morte de June Carter Cash, mulher de Johnny durante 35 anos. A abertura é firme, com a tradicional Ain't No Grave, diante de uma batida que simula sonoramente as correntes de um prisioneiro. A versão dele para For the Good Times transforma a despedida de namoro que Kris Kristofferson compôs em um adeus final. O mesmo vale para I Don't Hurt Anymore, do repertório de Hank Snow, que ganha brilho por um toque de humor. Cash canta com o cinismo astuto de uma má separação, ainda que esteja se separando da vida, e não de um amor.

Mas nem todo o disco funciona tão bem quanto esses bons momentos, que relembram os pontos altos da série. Redemption Day, uma canção de Sheryl Crow, é frouxa e chocha, e o pacifismo hippie de Last Night I Had the Strangest Dream parece ainda mais frágil na voz calosa de Cash. Mas em seu conjunto os álbuns American são sombrios, gloriosos e corajosos, concebidos em um vácuo social e dotados de rara perspectiva. Constituem, provavelmente, a mais notável e efetiva discussão de um final de vida que a cultura pop tem a oferecer.

Ainda assim, os discos todos mantinham o mesmo clima. E no final surge Aloha Oe: não é de forma alguma uma canção simples, e Cash afina e adocica a voz para acompanhar o violão de Cowboy Jack Clement. Escrita no final dos anos 1870 pela rainha havaiana Lili'uokalani, e conhecida pela versão de Elvis Presley em Blue Hawaii, ela ressurge açucarada e estranha na cover de Cash - um tanto de flerte, um tanto de brincadeira. Depois de dezenas de canções que criam a impressão de pás escavando a terra, ela propicia o som de um corpo que se levanta da terra e voa.

The New York Times


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